Artigos prof. Cleiber Maia

Artigos escritos pelo prof. Cleiber Maia.

O foco no movimento estável

Muitas pessoas praticam artes marciais em busca de equilíbrio emocional e em pouco tempo acabam descobrindo algo muito mais valioso. Descobrem a lidar com seus desequilíbrios e usá-los a seu favor. No momento que despertam para isso, a busca acaba e a ansiedade para alcançar algo distante se dissipa. O foco muda para a estabilização do movimento executado no momento de uma ação durante a luta. Aliás, a palavra emoção (e + moção) em sua origem se refere a movimento e nos leva a crer que a prática da estabilização dos movimentos contribui positivamente no equilíbrio emocional de uma pessoa.

No entanto, essa jornada não é tão simples, pois o movimento nos expõe a riscos. Os antigos samurais japoneses usavam saias largas que iam até o chão no intuito de omitir o posicionamento de seus pés aos olhos do adversário, pois no ato da transição que ocorre durante um movimento estariam vulneráveis ao ataque de seu oponente.

É importante levar em conta o risco de se mover em direção à posição desejada e o benefício que esse movimento nos trará ao alcançarmos tal posição. É comum vermos um lutador deixar de evoluir seu jogo por medo de se expor na transição de uma posição e as regras esportivas geralmente reprimem esse tipo de atitude passiva. A prática da arte marcial contribui para o encorajamento ao enfrentamento de desafios e a correr riscos na busca por uma posição melhor.

A luta pressupõe a ação através de movimentos que nos desestabilizam. Para agir, precisamos sair de uma posição cômoda, nos expor, nos movimentar em direção a um objetivo, até o alcance de um novo ponto de acomodação, onde o equilíbrio alcançado nada mais é do que um instante de passividade. Nesse sentido, podemos dizer que o equilíbrio não é um objetivo e sim um instrumento que nos ajudará a ser mais estáveis no caminho a ser percorrido.

Quanto mais preparado fisicamente for o atleta, mais breves serão esses momentos de equilíbrio passivo e mais frequentes serão os momentos em que teremos que lidar com o desequilíbrio.  Conversando com meu amigo e poeta Eduardo Tornaghi sobre esse assunto, ele  conseguiu resumir em uma pequena expressão essa complexa dinâmica – “surfando no desequilíbrio”.

Como conceito, o equilíbrio é muito interessante, mas enquanto houver combate, não deve ser o foco. Novamente enfatizo, o foco deve ser o movimento da forma mais estável possível em direção a um objetivo.

Contudo, mais uma vez recorrendo à etimologia, é muito importante entendermos a origem da palavra equilíbrio, que diz respeito a colocar o mesmo peso nos dois lados da balança. Se não tivermos a exata noção do centro não saberemos onde termina um lado e onde começa o outro. Como referência para a execução de um movimento estável, utilizamos nosso centro de gravidade (fica cerca de 5 dedos abaixo do umbigo) para distribuirmos nosso peso da forma mais adequada possível durante o combate.

Esse exercício diário para lidarmos com o desequilíbrio inerente à vida, sem que percebamos, nos prepara também para lidar com a relação entre nossas paixões e virtudes, entender até onde vão os limites da ira/serenidade, orgulho/humildade, vaidade/verdade, inveja/equanimidade, avareza/desapego, medo/coragem, gula/sobriedade, luxúria/inocência, preguiça/ação.

Não precisamos abolir o orgulho que sentimos ao vencermos uma competição, por exemplo, mas precisamos também ser humildes para admitir que ainda podemos evoluir e não somos imbatíveis. O mesmo orgulho que nos motivou a vencer pode nos prejudicar numa próxima competição por acharmos que não precisamos mais treinar tanto. Precisamos dos dois lados desta moeda, o orgulho e a humildade, basta saber onde termina um e começa o outro. Portanto o equilíbrio não é o foco e sim uma referência para não nos afastarmos muito do centro.

Outro ponto que diz respeito ao equilíbrio que se faz necessário na prática esportiva, é que invariavelmente expressamos nossas emoções no treino e a forma que lidamos com isso pode potencializar possíveis predisposições que temos a desenvolver vícios posturais.

Sendo assim, é de suma importância a realização de exercícios adicionais que balanceiem a relação entre os músculos agonistas, responsáveis pelos movimentos desejados e seus respectivos músculos antagonistas, cuja contração tende a produzir uma ação articular exatamente oposta.  Com uma boa orientação, musculação, ioga, pilates e outros exercícios funcionais podem ser ótimas opções de atividades complementares ao Jiu Jitsu.

Prof. Cleiber Maia

Lute para fazer diferente

Sabe aquelas fases da vida em que repetimos padrões de comportamento e volta e meia nos vimos numa mesma situação, por mais que desejássemos estar em outra. É como se ligássemos o piloto automático e nosso corpo nos guiasse sempre pela mesma estrada. Esse mecanismo pode até ser útil em certos casos, mas em outros pode ser inconveniente.

Na luta, o “piloto automático” pode ser visto em duas dimensões, na dimensão do movimento que o corpo faz em um determinado golpe e na dimensão da atitude a ser adotada numa luta.

A primeira dimensão, que ocorre no âmbito corporal, é vista quando, após treinarmos tanto um mesmo golpe, nem precisamos pensar na hora de aplicá-lo, pois nossos músculos já estão condicionados a reagir a partir do primeiro impulso nervoso enviado pelo cérebro. Podemos dizer que esse é o lado bom do “piloto automático”. O movimento acontece tão rápido e coordenado que não dá chances de o oponente reagir a tempo, a não ser que ele tenha se condicionado a aplicar a defesa ou contra golpe com mais maestria ainda.

Na segunda dimensão, o “piloto automático” ocorre no âmbito atitudinal. Refiro-me à postura que adotamos em relação às coisas e isso determinará as ações que tomaremos logo a seguir. Por exemplo, quando uma pessoa frágil sofre agressões constantes, diante de uma nova situação provavelmente reagirá com medo até que perceba que não há risco. A isso damos o nome de mecanismo de defesa e não podemos viver sem ele. Aliás, desde criança nos aperfeiçoamos em nossos mecanismos de defesa para nos tornarmos únicos e especiais.

No entanto, adotar mecanismos de defesa sistematicamente pode nos fazer perder tempo, pois nosso movimento ocorre sempre na mesma direção e caso não tenhamos feito a escolha certa, levaremos tempo para parar, mudar a direção, acelerar e percorrer o caminho que fizemos em vão.

Ninguém é perfeito e todos nós fazemos escolhas erradas. A luta nos permite exercitar a auto-observação e perceber quando estamos com o “piloto automático” ligado. Basta notar se usamos a mesma estratégia repetidamente. Por mais que tenhamos resultados positivos na luta, estamos caindo numa armadilha e devemos, num mesmo dia de treino, adotar estatégias distintas, como exercício para desligarmos o piloto automático.

Curiosamente a estratégia usada repetidamente no treino é a mesma que costumamos adotar no cotidiano.  Reparem quando num treino você repetidamente…

…utiliza a raiva para se motivar.

…usa força excessiva por medo de perder uma posição.

…fica triste por não se achar bom o suficiente.

…se acha mais poderoso do que seus adversários.

…se dá por satisfeito com pouco.

…se porta de forma extremamente autocrítica.

…não tem humildade para admitir que precisa aprender novas técnicas ou aceitar uma derrota.

…quer aprender compulsivamente novas técnicas, sem se especializar em nenhuma.

…guarda seu conhecimento para si, sem compartilhar com seus companheiros.

…demonstra ansiedade em relação a algo iminente.

… fica impaciente com sua lenta evolução no aprendizado de alguma posição.

…age de forma egoísta achando que não tem responsabilidade sobre a equipe.

…desiste facilmente de algo.

…tende a não buscar a finalização.

…não administra a sua energia ou as posições conquistadas numa luta.

…se dá o luxo de não traçar uma estratégia.

…encara a competição como objetivo e não parâmetro.

Nesses momentos, tente fazer diferente. Desligue o automático. Por experiência de quem pratica isso há quase 30 anos, muitas vezes, assim que chegamos em casa, já percebemos que algo mudou. No trabalho, os caminhos parecem se abrir. Na verdade, nós é que começamos a perceber as oportunidades que surgem e não distorcemos nossa visão das coisas. Deixamos as energias que obstruem nossa percepção para trás e olhamos o mundo como ele é e não como nós estávamos acostumados a vê-lo.

Prof. Cleiber Maia

O propósito de um mestre é instigar

Os melhores lutadores de Jiu Jitsu não são aqueles que repetem perfeitamente os golpes que seus mestres lhes ensinaram na academia. São aqueles que além de aprenderem os golpes, os adaptam em situações inusitadas.

Se o aluno achar que basta fazer os movimentos iguais aos de seu professor, então talvez esteja praticando o esporte errado. Que ele treine Balé e decore a coreografia para o dia da apresentação no Teatro Municipal, sem tirar o mérito dos grandes bailarinos que por lá passaram.

O propósito de um lutador é outro. Como pode um professor de Jiu Jitsu mostrar exatamente o que deve ser feito numa situação de luta que ainda nem existiu? Cabe ao professor, preparar seus alunos para as tais situações inusitadas. É preciso instigar seus alunos a serem originais, criativos e espontâneos, pois assim eles se sentirão mais confiantes para enfrentar os desafios da vida e a lidar com o desconhecido.

Não, não basta se comunicar e também não basta ensinar, há de se instigar o aluno. Deve-se gerar um desconforto intelectual. Aquele desconforto que move as pessoas, que as faz sair do ponto onde estão para um outro melhor.  Não é à-toa que nove entre dez lutadores dizem que tem dificuldades para dormir logo após o treino, porque ficam refletindo sobre as situações vividas no dojô.

Logicamente que para ensinar algo, o professor deve estabelecer uma sintonia com seu aluno para que ele capte a informação exposta. Até aí, a relação é confortável, fluente e a esse fenômeno se dá o nome de comunicação, ou ação em comum, se assim facilitar o entendimento do que está ocorrendo até este momento. O próximo passo é promover o treinamento do que foi ensinado e aí começa uma experiência mais complexa, mas ainda limitada, pois nessa realidade só há o aluno com seu corpo se adaptando aos movimentos que lhe foram mostrados e às forças que o seu parceiro de treino lhe impõe no treinamento.

No entanto, um lutador deve buscar mais do que isso, deve aprender a planejar estratégias e ter autonomia para alterá-las no momento da luta, caso seja necessário. Também deve aprender a se antecipar aos movimentos dos adversários e adaptar-se rapidamente a novas situações.  Mas o maior aprendizado que se pode ter praticando Jiu Jitsu é criar o hábito de se auto-observar e a cada dia se conhecer melhor. Então cabe ao mestre, criar oportunidades para que essas atitudes sejam experimentadas e o mais importante, instigar seus alunos a vivenciá-las no dia a dia. Essa é nossa proposta.

Prof. Cleiber Maia

Últimos Tweets


Follow @lpmjiujitsu

Visitantes