Mentalidade de dieta

Pessoal

Dando o pontapé inicial da nossa camapnha “Você tem fome de quê”, vou apresentá-los um texto escrito pela nossa colaboradora Luciana Saddi, publicado no blog dela. Ela é psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, mestre em psicologia clínica PUC- SP, autora dos livros, O amor leva a um liquidificador (ed. Casa do Psicólogo) e Perpétuo Socorro (ed. Jaboticaba), titular do blog e programa de Rádio, Fale Comigo, na Folha.com.

Mentalidade de dieta

– para o internauta que acha que sabota a própria dieta ofereço a minha visão do problema.

Diante de um prato de comida, de um buffet ou mesmo da fome, encontramos pessoas perdidas, tentando contar calorias, saber o que é cientificamente permitido e emitindo as mais criativas opiniões sobre os alimentos e a alimentação. Opiniões que parecem lastreadas em artigos científicos publicados em jornais ou revistas. Vale notar que esses “artigos científicos” de última moda descobrem propriedades exóticas nos alimentos ou mudam de opinião a cada semana. Mesmo assim ou por causa disso, estamos desconectados do ato de saciar a fome com o alimento saboroso de nossa escolha e com a quantidade que sentirmos ser suficiente. Nossa sociedade desaprendeu a comer, teme comer ou nem mesmo se permite comer e investigar a própria alimentação. Mediados por informações diferentes, nos encontramos perdidos diante do controle produzido por esses intermediários: ciência, meios de comunicação, propaganda, moda, indústria, família e escola, que criam ou propagam essa nova moralidade e produzem a mentalidade de dieta – a consequência é perda de autonomia do homem em relação a sua alimentação.

Mentalidade de dieta é um termo que se refere a uma política de controle típica da sociedade de massa de consumo – controle exercido sobre nossos corpos e gostos -, que nos aliena dos sinais vitais da alimentação: fome, saciedade e prazer em comer. É a causa de grande parte dos problemas alimentares, e não sua cura. Significa que o ato de alimentar-se deixa de ser uma decisão pessoal, impõe-se de fora, tomando o lugar do pensamento.

A mentalidade de dieta perturba os sinais vitais da alimentação – pessoas submetidas cronicamente a dietas costumam não saber se sentem fome e não reconhecem o sinal de saciedade. Alimentam-se rapidamente, procuram ingerir os alimentos “proibidos” em grandes porções, pois nunca saberão quando poderão usufruir desse prazer novamente. São como condenados a morte diante de sua última refeição. É que estão submetidos à privação de prazer e à privação calórica, o que os torna propensos ao distúrbio compulsivo de alimentação. Onde há privação, haverá compulsão.

A autonomia alimentar ocorre quando a alimentação é guiada pelos sinais vitais internos, pela percepção da fome, pela escolha livre do alimento desejado para aquele momento de fome e pela percepção do sinal de saciedade. É importante perceber quando usamos os alimentos para aplacar sentimentos, a comida deveria apenas aplacar a fome. Quando é usada para tapar uma falta ou diminuir uma ansiedade difusa, se torna um péssimo remédio, pois produz efeitos colaterais desagradáveis.

Psicanalistas do Women Terapy Centre nos EUA e na Inglaterra desenvolveram uma técnica para investigar a alimentação, visando recuperação dos sinais vitais ligados ao ato de comer. A mais conhecida delas é Susie Orbach, best seller na Inglaterra, foi colunista do The Guardian e professora convidada da London School of Economics. Há três livros dessa autora, especializada em escrever para o publico leigo, traduzidos no Brasil: Gordura é uma problemática feminista. A impossibilidade do sexo. Sobre a alimentação.

Quando iniciei as entrevistas sobre obesidade e sobre problemas alimentares, não sabia que ela viria para São Paulo (em setembro), participar de um encontro científico na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Em meu mestrado, No campo dos problemas alimentares: uma técnica de tratamento psicanalítica, procurei entrelaçar o pensamento dela com o de Fabio Herrmann, crítico da psicanálise e criador da Teoria dos Campos.

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